Atividade Física e Saúde Cardiovascular
Treinar salva vidas, mas não sem regras
EDIÇÃO 30
4/22/20264 min read


A prática regular de exercícios físicos é um dos pilares mais consistentes da prevenção cardiovascular e da promoção de saúde. Ainda assim, o exercício não é isento de riscos: a probabilidade de eventos adversos aumenta quando há doenças cardíacas não diagnosticadas, quando se inicia treinamento intenso de modo abrupto ou quando se ignora a necessidade de avaliação clínica.
A evidência científica é robusta ao demonstrar que indivíduos fisicamente ativos apresentam menor incidência de doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, diabetes tipo 2 e mortalidade por todas as causas. Esses benefícios possuem uma relação dose–resposta (isto é, ganhos já ocorrem com pequenas quantidades e se ampliam com maior volume, até certo platô), culminando com redução da pressão, dimunuição do peso, melhora do colesterol (aumento do HDL e redução de LDL), diminuição de marcadores inflamatórios, melhora da qualidade de vida, sono e a longevidade. Em indivíduos com doença cardiovascular estabelecida, programas planejados de reabilitação cardiovascular e treinamento supervisionado reduzem reinternações e melhoram capacidade funcional e sobrevida.
Diretrizes internacionais e nacionais são consistentes ao recomendar, para adultos, pelo menos 150–300 minutos/semana de atividade aeróbia de intensidade moderada, ou 75–150 minutos/semana de intensidade vigorosa
ou combinação equivalente, além de treinamento de força em 2 ou mais dias por semana envolvendo grandes grupos musculares. Recomenda-se, ainda, reduzir o sedentarismo ao longo do dia, pois longos períodos sentados se associam a pior prognóstico mesmo em pessoas que cumprem parte das metas semanais.
A importância de uma boa prática de exercícios envolve mais do que “fazer exercício”: inclui regularidade, progressão gradual, planejamento, alimentação adequada, hidratação, recuperação e respeito ao estado de saúde. As diretrizes de medicina do esporte enfatizam que aumentos súbitos de volume e intensidade elevam risco de lesões musculoesqueléticas e, em grupos vulneráveis, podem precipitar eventos cardiovasculares. Assim, recomenda-se começar com cargas toleráveis e progredir de forma gradual, especialmente em pessoas previamente sedentárias, com idade mais avançada ou com múltiplas doenças ou fatores de risco.
Além do componente aeróbio (caminhadas, corridas, bicicleta), o treinamento de força é relevante para saúde. Práticas de flexibilidade e equilíbrio podem ser úteis, sobretudo em idosos, reduzindo risco de queda.
A intensidade é um determinante central nos benefícios e nos riscos. Para a maioria das pessoas sedentárias, a combinação de intensidade leve a moderada no início, com progressão gradual, tende a facilitar adesão e segurança.


É recomendável avaliação clínica antes de iniciar exercício moderado a vigoroso, quando houver doença cardiovascular, metabólicas, renais, se houver sintomas sugestivos de doença cardiovascular (dor/pressão no peito, cansaço desproporcional, desmaio ou tonturas, palpitações, inchaço importante, intolerância recente ao esforço), história familiar de morte súbita em jovem, cardiopatia hereditária, retorno ao exercício após infarto, miocardite ou COVID-19 com sintomas cardiopulmonares, se há fatores de risco (pressão alta, diabetes, obesidade, por exemplo) ou em pessoa previamente sedentária.
A avaliação cardiológica geralmente inclui a consulta com cardiologista, anamnese e exame físico. O eletrocardiograma (ECG) pode ser útil na avaliação inicial de possíveis problemas cardíacos. Em pessoas com maior risco ou para prescrição mais segura de intensidade, teste de esforço (teste ergométrico) ajuda a estratificar risco, identificar isquemia e arrítmias induzidas por esforço, avaliar o comportamento da pressão arterial ao esforço e calcular a capacidade funcional do paciente. Ecocardiograma e outros exames são reservados a situações específicas (sopros, suspeita de cardiomiopatias, alterações no ECG, sintomas, história familiar).
Embora o exercício seja globalmente protetor, há cenários em que a prática sem orientação aumenta o risco de eventos cardíacos como infarto agudo do miocárdio, arritmias e até mesmo morte súbita. Caso apareçam sintomas como dor ou pressão no peito, falta de ar desproporcional ao esforço, desmaio, tontura intensa, palpitações, cansaço “fora do padrão” ou inchaço importante, deve-se interromper imediatamente a realização do exercício e procurar ajuda médica imediata.
A prática esportiva é uma intervenção de alto impacto e baixo custo para proteger o coração, desde que conduzida com método e responsabilidade. Em termos práticos, recomenda-se:
· Priorizar regularidade e progressão gradual, sobretudo no início;
· Monitorar intensidade e respeitar sinais de alerta;
· Realizar avaliação médica antes de treinos moderados a vigorosos, início de exercícios em indivíduos sedentários, quando houver sintomas, doenças prévias, história familiar relevante ou múltiplos fatores de risco;
· Valorizar orientação profissional (médico e educação física), especialmente para quem deseja alta intensidade ou tem comorbidades;
· Combinar aeróbio e força, reduzir rio e manter hábitos que sustentem o treinamento (sono, nutrição, hidratação).
Em síntese, o exercício é “medicamento” eficaz para a saúde cardiovascular, mas deve ser prescrito e utilizado na dose correta, respeitando a individualidade e os critérios de segurança. Quando bem orientada, a atividade física não apenas prolonga a vida, como melhora de modo significativo a qualidade.


