BARIÁTRICA: QUANDO O TRATAMENTO DA OBESIDADE PASSA A SER UMA MUDANÇA DE VIDA

História de paciente operada há dois anos pela equipe da Clínica Pelegrini, em São Miguel do Oeste, mostra os desafios antes da cirurgia e a importância do acompanhamento médico, nutricional e psicológico no processo de transformação

EDIÇÃO 31

10/14/20266 min read

O tratamento da obesidade vai além do peso na balança, considerando a saúde física, emocional e o estilo de vida do paciente. Nesse contexto, a cirurgia bariátrica funciona como uma ferramenta complementar, indicada de forma personalizada e

conduzida por uma equipe multidisciplinar. Na Clínica Pelegrini, em São Miguel do Oeste, esse cuidado é individualizado em todas as etapas, garantindo acompanhamento completo antes e depois do procedimento.

Uma dessas histórias é a de Renilce Carraro, moradora de Chapecó, que realizou a cirurgia bariátrica com a equipe da clínica em 20 de julho de 2024. Aos 48 anos, ela lembra que a decisão não aconteceu de forma imediata. Antes da cirurgia, vieram anos de tentativas para emagrecer, incluindo medicamentos e outras estratégias.

“Eu vinha de várias tentativas, tentar emagrecer, medicação e todos os outros métodos possíveis que a gente conheceu e eu nunca tive resultado”, conta.

Com o passar do tempo, o excesso de peso também começou a interferir na saúde. Renilce relata que passou a conviver com pressão alta, dores nas articulações e dificuldades para realizar atividades físicas. “Foi aí que então eu decidi que eu ia fazer a bariátrica pela minha saúde”, afirma. Dois anos depois, ela contabiliza 30 quilos a menos. A paciente conta que hoje está com 56 quilos e avalia a cirurgia a partir de uma perspectiva que vai além da perda de peso.

“Eu tô muito feliz, eu faria de novo. A bariátrica não é só estética, ela devolve a vida, devolve a saúde, disposição”, relata.

A experiência de Renilce encontra paralelo na trajetória do cirurgião bariátrico da Clínica Pelegrini, Dr. Marcos Pelegrini. Há 12 anos, antes de atuar na área, ele também passou pelo procedimento. “Não é segredo e sempre falo aos meus pacientes que sou um paciente bariátrico. Fui operado há 12 anos”, conta.

Na época, Marcos enfrentava obesidade e pré-diabetes. Após avaliar riscos e benefícios, optou pelo sleeve, técnica que reduz o tamanho do estômago sem alterar a absorção dos nutrientes por desvio intestinal.

“Para mim, foi um marco, um momento muito importante na minha vida”, afirma. O médico relata que perdeu cerca de 30 quilos e, desde então, mantém atenção à alimentação e à prática de atividades físicas. Essa vivência também transformou sua forma de compreender quem chega ao consultório.

“Como paciente, posso dizer que foi uma excelente opção”, resume. Contudo, Marcos ressalta que a cirurgia não deve ser encarada como uma decisão isolada ou solução instantânea: “A gente não tem que tomar decisões sozinhos. É essencial procurar o auxílio de uma equipe treinada e preparada para nos orientar”.

Antes e depois da cirurgia: um processo de acompanhamento

A cirurgia bariátrica é precedida por uma etapa de avaliação. O histórico do paciente, as condições clínicas, possíveis doenças associadas, riscos e benefícios são considerados antes da definição do tratamento.

O preparo também envolve profissionais de diferentes áreas. Nutrição e psicologia fazem parte desse acompanhamento porque a cirurgia modifica a rotina do paciente e exige mudanças que continuam depois do procedimento.

Para o Dr. Marcos, essa é uma das razões pelas quais a cirurgia não deve ser reduzida ao ato cirúrgico. “Não é uma cirurgia para operar o aparelho digestivo. É uma cirurgia que a gente intervém no aparelho digestivo, mas é uma cirurgia para mudança de vida, mudança de hábitos, mudança de condutas, mudança principalmente de qualidade de vida”, explica.

EQUIPE MULTIDISCIPLINAR

O acompanhamento é fundamental porque a perda de peso não encerra o tratamento. Após a operação, o paciente precisa adaptar a alimentação, monitorar a evolução clínica e consolidar novos hábitos no dia a dia.

A nutricionista Deyse Burin De Conto, especialista em obesidade e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, explica que uma das principais transformações está no modo de comer: “A pessoa precisa mastigar muito bem. A mastigação é essencial, assim como comer mais demoradamente e com calma”. Com a redução da capacidade gástrica, o volume, o ritmo e a composição das refeições exigem reorganização, e a proteína assume papel central: “A refeição sempre vai começar com a proteína. Ela sempre será o alimento principal”.

Fontes como carnes, ovos e laticínios são priorizadas para preservar a massa muscular durante o emagrecimento e garantir saciedade. Além disso, há regras para a ingestão de líquidos: “Não é possível tomar líquido e alimento sólido na mesma refeição; deve haver um intervalo entre eles”, pontua. Assim, a dieta torna-se parte ativa do tratamento, visando não apenas diminuir porções, mas evitar desconfortos e garantir qualidade de vida no pós-operatório.

A transformação além do prato

Paralelamente à dieta, a relação emocional com a comida também precisa ser trabalhada. A psicóloga Carlise Vanelli, da equipe da Clínica Pelegrini, explica que comportamentos alimentares vão além da fome fisiológica: “Os padrões e emoções que carregamos mostram o quanto isso afeta nossos hábitos, nosso comportamento e as escolhas que fazemos”. Fatores como estresse, cansaço e ansiedade frequentemente influenciam a alimentação e acabam sendo normalizados com o tempo.

Compreender esses gatilhos é essencial. Como ressalta Carlise: “As pessoas precisam mudar a forma como enxergam a comida. Ela foi feita para matar a fome, não para satisfazer problemas emocionais”. Nesse cenário, a psicoterapia atua identificando gatilhos e criando estratégias para lidar com a nova rotina, contando também com o suporte de familiares e pessoas próximas: “O pós-operatório traz todo esse movimento psicológico para que o paciente entenda seus processos e mude os padrões antigos para obter um bom resultado”.

Uma decisão que começa pela saúde

A história de Renilce ajuda a mostrar como a decisão pela cirurgia pode estar relacionada a diferentes fatores. No caso dela, as tentativas anteriores de emagrecimento, as dores, a pressão alta e a dificuldade para realizar atividades físicas foram determinantes.

Dois anos depois, o resultado que ela destaca não está apenas na perda de 30 quilos, mas na possibilidade de retomar atividades e estabelecer uma nova rotina.

“É uma vida nova que você ganha”, resume.

A experiência também reforça uma característica central do tratamento da obesidade: não existe uma única estratégia adequada para todas as pessoas. A indicação de cirurgia, assim como a técnica utilizada e o acompanhamento necessário, depende da avaliação individual de cada paciente.

Para o Dr. Marcos, o papel da equipe é justamente orientar esse caminho.

“Ninguém precisa encarar esse processo sozinho. Procure ajuda, procure uma equipe preparada, procure uma equipe ambientada e acostumada a tratar isso”, recomenda.

A cirurgia bariátrica, nesse contexto, representa uma ferramenta dentro de um tratamento mais amplo. O procedimento pode contribuir para a redução de peso e para o controle de condições associadas à obesidade, mas os resultados dependem também da continuidade do cuidado, da adaptação dos hábitos e do acompanhamento profissional.

Na Clínica Pelegrini, a proposta é partir dessa avaliação individualizada para compreender o paciente antes de definir o tratamento. Porque cuidar da obesidade não significa julgar um corpo pelo peso que ele apresenta. Significa compreender uma doença, avaliar seus impactos e construir, junto com o paciente, um caminho possível para cuidar da saúde.

E, para quem já passou por esse caminho, como Renilce, a mudança pode ser percebida não apenas na balança, mas na própria rotina.

“Eu faria de novo, assim, sem ter esperado tanto tempo”, afirma.

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