PRÓTESES METÁLICAS NO TRATO GASTROINTESTINAL

Como pequenos dispositivos revolucionaram o tratamento de doenças digestivas

EDIÇÃO 31

10/14/20264 min read

Imagine uma pequena estrutura metálica, uma malha cilíndrica encolhida dentro de um tubo fino que, ao ser posicionada através de um segmento do tubo digestivo (como o esôfago ou o intestino), se expande sozinha e restaura a passagem de alimentos, bile ou fezes. Essa tecnologia, hoje corriqueira na endoscopia moderna, transformou o tratamento de diversas doenças do aparelho

digestivo, permitindo aliviar sintomas importantes sem a necessidade de grandes cirurgias. Embora muitas pessoas associem os stents às doenças cardíacas, eles também desempenham um papel fundamental na gastroenterologia, sendo uma das conquistas mais importantes da endoscopia terapêutica e foco constante de estudo e evolução.

O que é um stent?

O stent é uma pequena prótese em forma de malha cilíndrica cuja função é manter aberto um canal do organismo que foi estreitado ou obstruído. O nome “stent” tem uma origem curiosa: homenageia Charles Stent, um dentista inglês que, em 1856, desenvolveu um material utilizado para moldagem dentária e suporte à cicatrização de tecidos. Décadas depois, o termo passou a designar qualquer estrutura utilizada para sustentar um órgão ou canal do corpo. Os primeiros stents modernos surgiram na década de 1980 para resolver um problema da angioplastia com balão: após a dilatação das artérias, muitas voltavam a se fechar rapidamente. A solução foi implantar pequenas próteses metálicas, em forma de mola, que sustentavam o vaso e o mantinham aberto. O primeiro implante coronariano em seres humanos ocorreu na França, em 1986, inaugurando uma nova era na medicina.

O sucesso dessa tecnologia levou rapidamente ao desenvolvimento de stents para outras partes do organismo, incluindo o trato gastrointestinal.

Como esses dispositivos funcionam?

A maioria das próteses utilizadas atualmente é fabricada com uma liga metálica chamada nitinol, composta por níquel e titânio.

O nitinol possui uma propriedade extraordinária conhecida como memória de forma: a prótese é comprimida dentro de um cateter muito fino durante o procedimento e, ao ser liberada no local desejado, a própria temperatura corporal faz com que retorne instantaneamente ao formato previamente programado. Além disso, o material apresenta superelasticidade, suportando grandes deformações sem perder sua forma original. Essa característica permite que a prótese acompanhe os movimentos naturais do tubo digestivo — como a deglutição, o peristaltismo e as mudanças de posição do corpo — mantendo sua função por longos períodos. Uma vez expandida, a prótese exerce uma força contínua sobre a região estreitada, restaurando a passagem do conteúdo pelo órgão.

Onde essas próteses são utilizadas?

O emprego dos stents revolucionou o tratamento de diversas doenças do aparelho digestivo.No esôfago, são utilizados principalmente para aliviar a disfagia (dificuldade para engolir) causada por tumores ou estreitamentos benignos. Alguns modelos modernos possuem válvulas que reduzem o refluxo do conteúdo gástrico.

No estômago e no duodeno, permitem que pacientes com tumores avançados voltem a se alimentar quando a saída do estômago está bloqueada.No intestino grosso, especialmente no cólon, podem desobstruir a passagem intestinal quando tumores impedem o trânsito das fezes. Em muitos casos, funcionam como uma “ponte para a cirurgia”, estabilizando o paciente antes de uma operação planejada e evitando procedimentos de emergência e a necessidade de colostomia (bolsa).

Nas vias biliares e no pâncreas, os stents são fundamentais para restabelecer o fluxo da bile quando tumores ou cálculos provocam obstrução. Isso reduz a icterícia, melhora a função hepática e possibilita que muitos pacientes recebam tratamento oncológico em melhores condições.

Mais recentemente, surgiram as chamadas próteses de aposição luminal (LAMS). Diferentemente dos stents tradicionais, elas têm formato semelhante a um haltere, o que permite criar uma comunicação segura entre dois órgãos ou entre o tubo digestivo e coleções líquidas. Essas próteses revolucionaram o tratamento minimamente invasivo de pseudocistos pancreáticos, abscessos e drenagens da vesícula biliar, evitando muitas cirurgias.

Uma alternativa menos invasiva

A colocação dessas próteses normalmente é feita por endoscopia, muitas vezes associada ao uso de radioscopia (raios X em tempo real). Trata-se de um procedimento minimamente invasivo, sem cortes, com recuperação muito mais rápida do que a cirurgia convencional.

Nas obstruções causadas por câncer — especialmente em pacientes que não podem ser operados —, os stents tornaram-se o tratamento de escolha para aliviar sintomas, melhorar a alimentação, reduzir a icterícia e proporcionar melhor qualidade de vida.

Embora atualmente sejam utilizados principalmente com finalidade paliativa — ou seja, para aliviar sintomas sem eliminar a doença de base —, sua evolução tecnológica vem ampliando cada vez mais suas possibilidades terapêuticas.

O futuro já começou

A próxima geração de próteses promete ir muito além da simples abertura de um órgão obstruído.

Pesquisadores trabalham no desenvolvimento de stents capazes de liberar medicamentos diretamente sobre o tumor, concentrando altas doses de quimioterápicos no local da doença e reduzindo os efeitos colaterais no restante do organismo.Outra área extremamente promissora é a das próteses biodegradáveis. Diferentemente das metálicas tradicionais, elas permanecem funcionando apenas pelo tempo necessário e depois são gradualmente absorvidas pelo próprio organismo — o que poderá eliminar a necessidade de remoção em muitos casos, reduzir complicações relacionadas ao implante prolongado e facilitar o tratamento de doenças benignas.Também estão em desenvolvimento dispositivos produzidos por impressão 3D, personalizados para a anatomia de cada paciente, além de novos revestimentos capazes de reduzir infecções, impedir a formação de tecido cicatricial e prolongar a durabilidade das próteses.

Uma tecnologia em constante evolução

Em poucas décadas, os stents deixaram de ser pequenas próteses desenvolvidas para tratar artérias do coração e se tornaram dispositivos sofisticados que transformaram a endoscopia digestiva. Hoje, permitem tratar obstruções do esôfago, estômago, intestino, vias biliares e pâncreas por meio de procedimentos minimamente invasivos, devolvendo conforto e qualidade de vida a milhares de pacientes.

Os avanços mais recentes indicam que seu papel deixará de ser apenas paliativo. Com o desenvolvimento de próteses inteligentes, biodegradáveis e capazes de administrar medicamentos diretamente no local da doença, esses dispositivos caminham para se tornar ferramentas terapêuticas cada vez mais eficazes, marcando uma nova etapa da medicina minimamente invasiva.

O serviço de endoscopia do Hospital Casa Vitta já emprega a tecnologia de próteses metálicas autoexpansíveis (stents) desde 2021 para o tratamento de tumores de esôfago e, mais recentemente, para tumores de vias biliares e intestino.

A BRUNO MARIANO SCHMIDT

Cirurgião do Aparelho Digestivo RQE 14529

Endoscopia RQE 15772

Atuação

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